Aos mais antigos exercita a memória,aos mais novos excita as sensações,a todos agrada. O convite estáfeito: a frescura, o chiar metáliconos carris, a paisagem e a chegada àPraia das Maçãs para um almoço ouapenas um café com cheiro a maresiae a revivalismo, fazem do eléctricode Sintra uma boa proposta paraeste Verão, com viagens regulares apartir da Vila Alda às sextas-feiras,sábados e domingos. Ah! E, aindapor cima, é barato.Numa tarde pintada de sol, o vermelhoeléctrico n.º 6 parte apinhadode gente, deixando uns quantos nacondição de peões mais algum tempo.A capacidade está esgotada: 32lugares sentados, mais quatro em péna retaguarda. Ir pendurado no estriboestá fora de hipótese. “Às vezes,temos dificuldade em convenceralguns passageiros que essa actividaderadical, sendo aliciante, nãoé aconselhável”, comenta ValdemarAlves, coordenador deste serviçode transportes, co-autor do livrolançado em 2004 para comemorar ocentenário da linha e que, em 2009,tirou mesmo um curso de guarda-freio e pôs-se a conduzir o ‘pouca-terra’. Agora é, sobretudo, guia econtador de histórias sobre os veículosque marcaram diferentes gerações,vendo-se já bisnetos ao colo dealguns passageiros das primeiras décadasde actividade.Semeada em ambiente bucólico,não parecendo, a linha tem os seusriscos. Os primeiros quilómetros sãopropícios a embalar e aí “o guarda-freio não pode facilitar”. A velocidaderecomendada é de 15/20km, mas Valdemar lembra-se de umteste feito em meados dos anos 90,com um automóvel ao lado, que permitiuperceber que o motor dos pacatoscarros movidos a electricidadepode chegar, numa recta em descida,a 108 km/hora…Não são, porém, para filmes deacção espectacular que estes veículosestão a ser recuperados, paulatinamente,pela Câmara de Sintra(dos sete carros motor e sete atreladosjá retomaram a mobilidade quatrodos primeiros e dois dos segundos).É mais uma película à Manoelde Oliveira, mas com cenas pitorescascomo a que acontece amiúde, àssextas-feiras e sábados de manhã,quando o ajudante do guarda-freiose torna, também, ajudante dos idososque moram juntinho à paragem eque, nesses dias, religiosamente, vãoàs compras ao Mercado da Estefânia.“Pomos uns banquinhos parafazerem de degrau e num ápice damoso jeito e levamos os sacos atéà porta de casa”, relata ValdemarAlves, com visível satisfação por este‘mimo’ de serviço público.Ademais, trata-se de uma “linhamuito sinuosa” e com troços ondehá numerosas entradas e saídas paraquintas e vivendas. Toda a atenção épouca, até porque “muitos moradoressaem de marcha-atrás, o quenão ajuda nada”.Por via das dúvidas, vai-se maisdevagar, o que, aliás, é bom paraapreciar a paisagem. O eléctrico,aberto, apenas com cortinas de correr,permite ampla visão e dá tempo,inclusive, para corresponder aos acenose às buzinadelas dos automobilistasque seguem na estrada. Isto antesde os carris se afastarem do asfalto,à entrada de Colares, e irem passarmais perto de quintas, “quaseem cima de coelhos e galinhas”,oferecendo, também, vista privilegiadapara algumas moradias, piscinasincluído – o que levou alguns dos inquilinosa erguerem barreiras…Ao surgir no horizonte o antigoapeadeiro de Colares – ao que parece,com projecto de recuperação naforja – Valdemar Alves lembra que estefoi o primeiro ‘terminus’ da linha eera das paragens mais importantes.Entretanto, pelo lado esquerdo estende-se a Várzea de Colares, “terrenosfantásticos para agricultura” que,pelo que se tem visto, parecem destinadosa voltar ao aproveitamento deoutrora por força da crise…Mais uma curva e o eléctrico chegaao Banzão e à Adega Regional deColares. No Pinhal da Nazaré constata-se porque se tornou esta umadas paragens mais importantes,cheia de passageiros graças ao hotelali existente.Pouco depois, meta à vista. Ecom ela também a bandeira vermelhaque é teimosa na Praia das Maçãs.A meio da tarde, os passageirossaem e vão animar o comércio local,afinal, um dos objectivos deste serviçode transportes.Por dois euros (adultos), apenasum (idosos com 65 ou mais anos) ouaté gratuitamente (crianças até seisanos, desde que não ocupem lugar),aqui fica uma proposta refrescantepara os quentes fins-de-semana quese avizinham.
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