Nos dias que correm, emque a linguagem fria dos númerossombrios, a soma desacrifícios e a diminuição deregalias, enfim, a chamadaausteridade, ameaçam tomarconta do quotidiano, o contactocom a Natureza podeservir de eficaz antidepressivo.Mais ainda, se a ela juntaroutro poderoso agente activocontra o conformismo:um bom livro pode ser um escape,mas também o detonador– muito temido desdetempos imemoriais pelos donosdo poder – de mudançasinteriores ou novas visões doMundo que nos rodeia. E,nesse arsenal, a poesia ocupaum lugar de destaque.Por isso, neste Verão nãose renda, "troike" as voltas àinevitabilidade e vá ao Parquedos Poetas inspirar-senas palavras de esperança ereflexão deixadas por algunsdos grandes vultos da nossaliteratura. Leia os poemasinscritos no pavimento daAlameda central e visite, emambos os lados, cada umadas “ilhas” onde estão as estátuasde ilustres autores quemarcaram o século XX. Sequiser assinale o momentocom uma fotografia que as representaçõesem pedra sãode tamanho que ilustra bemo dito de Florbela Espanca:“Ser poeta é ser mais alto, éser maior do que os homens!”.A ligação da vegetação ecomposição cénica de cada“ilha” com a obra do poetafoi uma regra que os autoresdo projecto procuraram cumprir.Outro exemplo claro éo local onde se encontra VitorinoNemésio: a estátuatem corpo feito de ondas sobrepostasaté à cabeça do escritoraçoriano; em seu redorhá três conjuntos de blocosde pedra negra, evocando osdiferentes grupos de ilhasque compõem aquele arquipélago,e um caminho em pavimentoliso salpicado de remendos,significando, talvez,as dificuldades no percurso…Vá aproveitando as sombrasque aparecerem disponíveis,pois estas não abundamnos 12 hectares, já quevárias das árvores existentesainda não atingiram porte suficiente.Os conjuntos áridosde pedras, talhadas rudementeou polidas, brancas enegras, dispostas na horizontalou na vertical, que vão intercalandoa subida da Alamedados Poetas, podem aumentara sensação de calor.Se correr uma aragem, éuma delícia passear lentamente,mas em caso de canículavai apetecer correr pelolado direito de modo a chegardepressa à Fonte Cibernética,um espelho de águacom repuxos e efeitos deágua refrescantes só de ver…Todavia, se puder, continuena senda dos escritores,pois há muitas estátuas paraver e poemas para ler nochão. A propósito de pedra…vem a calhar o poemade Miguel Torga: “O meuperfil é duro como o perfildo Mundo/ Quem adivinhanele a graça da poesia?/ Pedratalhada a pico e sofrimento/É um muro hostil à voltado pomar”.Vá onde for, pode sempredescansar num dos muitosbancos de dupla direcção.Mas não desista de chegar aotopo da Alameda. Passe, ainda,por Fernando Pessoa,Alexandre O’Neill, DavidMourão-Ferreira, Carlos deOliveira, Camilo Pessanha,Mário de Sá-Carneiro, JoséGomes Ferreira, Jorge de Sena,Natália Correia, Eugéniode Andrade, António RamosRosa, António Gedeão, RuyBelo e Teixeira de Pascoaes.Sem perder de vista, porém,que o Parque dos Poetasinclui, ainda, um anfiteatroao ar livre, uma parque infantil,e um polidesportivo.E que a sua 2.ª fase (30 milhõesde euros) está em curso,no final da qual, o queexiste hoje terá continuidade– do outro lado da estradaonde agora o espaço termina– em mais 15 hectares de jardim,nos quais ficarão imortalizados,em esculturas, 41poetas, dos quais 30 portuguesese 11 de países de línguaoficial portuguesa, pelamão de outros tantos escultores.Para além de várias estruturasalusivas ao mesmo tema,incluindo um Templo daPoesia e até uma “Ilha dosAmores”…
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