quinta-feira, 6 de setembro de 2012

PRESIDENTE DOS SMAS ALMADA EM ENTREVISTA ‘Aqui a água é mais barata pela eficiência de gestão’


José Gonçalves admite baixar os preços da água e critica a possibilidade de privatização de um sector fundamental

A água em Almada pode baixar de preço. Quem o afirma é o presidente dos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento (SMAS) de Almada. Em entrevista ao Jornal da Região, José Gonçalves garante que vai lutar contra as intenções do Governo em privatizar a água e parece já ter um plano. Está convicto que com a privatização os cidadãos vão pagar mais e serão pior servidos.
Os SMAS de Almada comemoraram, no ano passado, 60 anos de serviço público municipal. Que legado ficou dessas comemorações?
Foram lançados vários projectos para o futuro, mas um dos mais marcantes foi o “Beba Água da Torneira”. É um projecto ambiental que visa chamar a atenção para a qualidade da água no concelho de Almada e os procedimentos inerentes à sua gestão. Inicialmente aderiram a este programa 24 entidades e, neste momento, já são 60 aderentes; como escolas, colectividades, empresas, unidades hospitalares e os vários serviços municipais.
Este programa é um selo de garantia dos SMAS sobre a água que consome no concelho?
Fomos uma das primeiras entidades do país a terem um plano de segurança da água, portanto desde há muitos anos que temos um plano de controlo da qualidade da água. Isto significa que o percurso da água é monitorizado permanentemente desde a captação até à casa das pessoas, o que nos permite conhecer não só a qualidade da água na rede, mas também aplicar um conjunto de acções de prevenção de risco. Podemos afirmar que o projecto “Beba Água da Torneira” chama a atenção para um produto acessível, económico e de qualidade sempre garantida. 
Como controlar a qualidade da água na torneira do consumidor quando em causa pode estar a rede interna dos edifícios?
O projecto tem duas grandes componentes: sensibilização e informação.Os SMAS informam as entidades neste projecto sobre a qualidade da água e também informação específica sobre a água que sai nas suas torneiras. Podemos assim identificar problemas que levam à perda de qualidade por causa da deterioração da rede interna dos edifícios e avançamos soluções. 
E o universo dos consumidores como pode integrar este projecto? 
Temos 107 mil contratos, pelo que não existe condição imediata para os integrar a todos neste projecto. Mas qualquer cidadão que queira saber qual a qualidade da água na torneira da sua casa basta contactar os SMAS e estamos disponíveis para a analisar. Em breve vamos enviar a todos os nossos consumidores um folheto sobre a responsabilidade partilhada entre os SMAS e os proprietários, onde chamamos a atenção para avaliar cada caso. 
Em Abril deste ano afirmou ao Jornal da Região que o preço da água em Almada não ia aumentar – houve de facto um acréscimo no valor da factura mas relacionado com a taxa de saneamento. Aliás, chegou mesmo a dizer que a tendência, no concelho, era o preço da água baixar. Isto contraria a ministra do Ambiente, Assunção Cristas, que tem afirmado que o sector só será rentável se o preço da água aumentar.Quem tem razão?
Temos nós!Não se deve cobrar às pessoas mais do que o necessário para o bom funcionamento do sistema. Os SMAS conseguem ter o sistema da água a funcionar cobrando menos taxas aos consumidores. Se o preço da água for generalizado deixa de ser considerado o custo social da exploração. Este é um factor decisivo na determinação do preço e a política nacional que visa generalizar o preço retira este factor de ponderação.
Mas como consegue reduzir o preço da água?
Cobramos aos cidadãos menos pela água porque conseguimos eficiências na sua gestão, o que nos permite prestar o mesmo serviço taxando menos na água. A gestão e o investimento são factores de ponderação das taxas. Este é o mesmo princípio que nos leva a dizer que a taxa de saneamento tem de crescer nos próximos anos porque não podemos partilhar as taxas da água com a de um outro serviço cuja exploração é mais onerosa. 
O que explica o saneamento ser mais caro que a captação da água?
As ETAR têm de funcionar permanentemente, têm exigências técnicas grandes e custos de manutenção muito elevados. Por exemplo: só a remodelação da ETAR da Quinta da Bomba, neste momento a decorrer, implica um investimento de 11 milhões de euros. 
Todos os consumidores do concelho estão integrados na rede de saneamento?
Neste momento sim. Em Janeiro tínhamos 98 por cento do saneamento ligado à rede, com o novo regulamento –aprovado este ano – assumimos a gestão da rede a 100 por cento. Ou seja, mesmo as habitações que têm fossa passaram a pagar saneamento sendo a recolha assegurada pelos SMAS. Com isto o conjunto da factura manteve-se porque as pessoas que não pagavam saneamento passaram a fazê-lo, o que permitiu alguma sustentabilidade. Mas no futuro certamente será necessário aumentar a taxa de saneamento, sendo que a eficiência na gestão global será maior. 
Já reconheceu que a luta para manter a gestão do ciclo da água como serviço público municipal vai ser difícil. Será que os defensores da privatização do sector estão um passo
mais à frente? 
Nos últimos meses os defensores da água pública ganharam maior posição. Embora os defensores da privatização sejam o Governo da República, estão com dificuldades em implementar essa orientação. O facto de a senhora ministra Assunção Cristas ter dito que a prioridade era a privatização do sector e ainda não ter dado passos definitivos nesse sentido é indiciador das dificuldades que enfrenta na sociedade portuguesa. As pessoas sabem que onde o sector foi privatizado houve perda de qualidade do serviço e passaram a pagar mais. Não há nenhum bom exemplo a favor da concessão do sector, o objectivo da privatização é somente o lucro. 
Por isso afirma que é um erro desmunicipalizar o sector? 
Almada é um dos exemplos onde este sector tem elevados indicadores de gestão e elevados indicadores de cobertura, porque é municipal. Se um dia for privatizado a orientação do negócio será outra e a população ficará a perder. 
E se surgir legislação a forçar a privatização?  
Mesmo que a fórmula actual tenha de mudar por força da legislação, em Almada estamos convictos que vamos conseguir que o sector continue público e municipal. 
Humberto Lameiras

terça-feira, 4 de setembro de 2012

MONTELAVAR Senhora da Nazaré, 17 anos depois


Montelavar acolhe santa peregrina, entre 15 e 23 de Setembro, numa manifestação de fé e devoção

Dezassete anos depois, a paróquia de Montelavar volta a acolher a imagem de Nossa Senhora da Nazaré, cumprindo mais uma etapa do Círio da Prata Grande. Os festejos arrancam no próximo dia 15, com o círio proveniente de Santo Isidoro (Mafra) a entrar em Montelavar já durante a noite, como manda a tradição, num dos momentos altos emtermos religiosos. A chegada a Montelavar está prevista para as 21h00, com o acolhimento a ter lugar meia hora depois na igreja da freguesia, onde são esperadas milhares de pessoas e muita emoção à mistura. Após as festas de 1995/1996, os fiéis aguardam com expectativa o regresso da veneranda imagem. "A expectativa em Montelavar é elevada, por se tratar de um círio com muito impacto nas 17 paróquias que a imagem visita, de 17 em 17 anos, assumindo-se como uma festa de grande relevo e interesse para as populações da nossa região", salienta Armando Silvestre, juiz das festas, que se vão prolongar até 23 de Setembro. Apesar dos tempos de crise, que condicionaram ao nível da oferta artística, o programa foi delineado de acordo com a relevância dos festejos. "O programa tem qualidade, tem dignidade e muito respeito pela situação em que nos encontramos", realça o responsável da Comissão de Festas de Nossa Senhora da Nazaré. Uma crise que se sente com muita acuidade nesta região, um dos pólos nacionais da transformação das rochas ornamentais, que tem visto o desemprego assumir números assustadores. "Montelavar encontra-se numa zona industrial bastante penalizada pela crise", lamenta Armando Silvestre. A vertente religiosa das festas contempla a realização de duas procissões, nas tardes de domingo (dia 16 e 23), após a celebração de missa a cargo do padre Avelino Alves, pároco de Montelavar. "São também dias religiosos de alto nível, nas cerimónias que rodeiam a imagem de Nossa Senhora da Nazaré". O ponto alto será, no entanto, o círio entre Santo Isidoro e Montelavar. Com saída da localidade do concelho de Mafra a partir das 13h00, a imagem será transportada num veículo especial da Confraria de Nossa Senhora da Nazaré, uma berlinda, percorrendo os 17 quilómetros que separam Santo Isidoro de Montelavar "a passo de cavalo". Com o acompanhamento da Charanga da GNR, o círio vai efectuar algumas paragens em localidades do concelho de Mafra, incluindo em frente à basílica, "onde os anjos cantam para o povo". Cerca das 20h00, está prevista a chegada a Pero Pinheiro e, uma hora depois, a Montelavar, com o acolhimento na Igreja Matriz previsto para as 21h30. 
João Carlos Sebastião

SINTRA Bombeiros-ciclistas


Corporação de Sintra está mais próxima de turistas e residentes da Vila Velha

Pelo segundo ano consecutivo, os Bombeiros Voluntários de Sintra estão mais próximos de turistas e residentes na Vila Velha, em Sintra, durante a época de Verão. Aos domingos, desde o início de Agosto e até ao próximo dia 16 de Setembro, dois elementos da corporação vão percorrer o centro histórico de bicicleta para prestar um socorro imediato em caso de emergência. Numa área classificada como Património da Humanidade, visitada por milhares de pessoas, os acessos tornam-se, muitas vezes, uma dor de cabeça, mesmo para as viaturas de emergência. Com dois elementos em permanência na Vila Velha, a circularem de bicicleta, os Bombeiros de Sintra conseguem reduzir o tempo de resposta, efectuando, desde logo, uma primeira triagem que permite accionar, em casos mais graves, outros meios de emergência pré-hospitalar. "É muito complicado chegar ao centro da Vila com qualquer meio, seja uma ambulância ou um veículo de combate a incêndios", sublinha Nuno Encarnação, 2.º comandante da corporação de Sintra. No próprio dia em que se deslocou ao encontro da equipa de reportagem do JR, para dar conta do projecto, a viatura deste operacional foi obrigada a ficar imobilizada junto à entrada do Parque das Merendas, na Volta do Duche, enquanto um reboque retirava, sob a coordenação de efectivos da GNR, um veículo particular da zona exclusiva de paragem de autocarros de turismo. Um bloqueio logo pela manhã "e a tendência é para piorar ao longo do dia", lamenta o 2.º comandante. "A mais-valia efectiva é a rapidez do socorro prestado a qualquer pessoa que se sinta mal", reforça o responsável da corporação, a qual, com o projecto em curso aos domingos, entre as 9h00 e as 18h00, também assume maior visibilidade perante a população. Longe vão os tempos em que os Bombeiros Voluntários de Sintra estavam instalados em pleno centro histórico, no edifício actualmente ocupado pelo Museu do Brinquedo. Dotados de uma pequena mochila de primeiros-socorros, que se complementam em termos de material, os dois operacionais acorrem a situações de quedas na via pública ou de problemas momentâneos de saúde, como consequência das altas temperaturas ou de qualquer outra situação. As ocorrências têm sido escassas, mas, em meados de Agosto, foi mesmo necessário accionar uma ambulância para o largo do Palácio da Vila. "Foi uma senhora que teve uma crise convulsiva, que foi socorrida de imediato pelos elementos que estavam aqui de prevenção. Complementarmente, a ocorrência foi triada pelo INEM, por se tratar de uma emergência pré-hospitalar, e o CODU (Centro de Orientação de Doentes Urgentes) decidiu accionar a ambulância INEM sediada nos Bombeiros de Sintra". Com dois turnos, de manhã e de tarde, o projecto vive do empenhamento dos elementos do corpo de bombeiros, como salienta Nuno Encarnação. "É um projecto para continuar" nos próximos anos, garante, mas que só é possível graças "ao esforço e dedicação" dos elementos destacados conforme a disponibilidade. Também importante se revela o apoio de comerciantes locais e de órgãos autárquicos como as juntas de freguesia de São Martinho e de Santa Maria e São Miguel. Num dos últimos domingos, Bruno Feixeira e Oleksandr Davydian eram os bombeiros-ciclistas de serviço. Bruno já era repetente, enquanto Oleksandr, de nacionalidade ucraniana, a dar os primeiros passos como bombeiro de 3.ª classe, estreava-se a pedalar na Vila de Sintra. Bruno Feixeira realçou ao JR que o projecto "tem estado a correr bem", com uma receptividade muito positiva por parte da população. "Ficam contentes por nos verem cá porque sabem que, se precisarem, estamos prontos a prestar a primeira assistência". Em duas rodas, tudo se torna menos difícil, "facilita a chegada ao local", porque, em condições normais, "demoramos sempre 10/15 minutos do nosso quartel até à Vila, devido ao trânsito que se faz sentir". Há quatro anos no nosso país, Oleksandr não esconde a satisfação por integrar o projecto, mas, mais do que isso, por pertencer ao corpo de bombeiros e, assim, servir o próximo. 
João Carlos Sebastião

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

MIRAFLORES Associação promove leitura e artes


Clareira Encantada está instalada no Parque da Quinta de Santo António

Meio escondido pela vegetação luxuriante que é imagem de marca do Parque Urbano da Quinta de Santo António, em Miraflores, mas também graças à discrição das suas linhas arquitectónicas, o edifício que alberga a Clareira Encantada – Associação Infantil de Miraflores passa quase despercebido, sobretudo a quem não se aventure a contrariar o declive natural daquela área verde (nas traseiras do centro comercial Dolce Vita). Lá bem no alto, num espaço outrora destinado a funcionar como salão de chá, mas que acabou por permanecer abandonado anos a fio, descobre-se, ainda com surpresa para muitos oeirenses certamente, uma biblioteca, uma ludoteca com jogos e filmes para ver (mesmo que sejam em cassetes vídeo, o que para muitos dos miúdos é uma “novidade”…), ‘workshops’ diversos para experimentar, actividades para aprender a tocar guitarra, yoga, hip-hop, música… A vertente de leitura e divertimentos é gratuita e a Clareira Encantada está de portas abertas os sete dias da semana (das 13h30 às 19h00 aos dias úteis, e das 11 às 17h00 aos sábados e domingos) a quem queira usufruir da sala que, embora não muito grande, está bem composta de livros e jogos para as crianças. Quanto às outras actividades, são pagas,mas a quantia cobrada é bastante acessível, à média de 5 euros por aula/sessão. “Somos uma associação sem fins lucrativos, mas não temos apoios e precisamos de um mínimo de receita que, na realidade, se expressa através de doações e não da cobrança de preços de mercado”, faz questão de esclarecer Cristina Porto. “Temos uma biblioteca de portas abertas a uma comunidade a quem prestamos um conjunto de serviços que consideramos importantes e úteis, gerando recursos que apenas têm dado para cobrir despesas correntes, ainda assim com muita dificuldade”, acrescenta. O projecto da associação, constituída em Março de 2010, mereceu o acordo da Câmara, que cedeu o espaço no alto da Quinta de Santo António por um período de cinco anos. “No próximo mês de Outubro cumprimos o segundo ano”, informa Cristina Porto, moradora na zona de Miraflores e formada na área de Acção Educativa. Apesar das dificuldades, o balanço é positivo. Sobretudo tendo em conta a base de partida do projecto. “Passei aqui por este espaço quando ele estava abandonado e vandalizado, achei um desperdício e resolvi apresentar esta proposta”, recorda a presidente da Clareira Encantada. O facto de pretender trabalhar com crianças, pais e avós num parque que, por si só, atrai as famílias, podendo, portanto, ser um bom complemento às actividades lúdicas ali preexistentes terá pesado para a aceitação que a iniciativa teve na Câmara. Incentivar à leitura e promover a interacção entre as diferentes gerações são objectivos da associação, que planeia iniciar já em Setembro novas actividades, nomeadamente, Educação Musical para crianças dos 6 aos 10 anos, aulas de Taichi/Chikung para os avós, e aulas de meditação e relaxamento. Sem apoios financeiros, a grande fonte de receitas tem sido uma tenda instalada em anexo ao edifício principal, cujo uso a associação cede para a realização de festas de aniversário (100 euros por três horas, beneficiando dos serviços de apoio da instituição como uma pequena cozinha, fraldário, louça, decoração, jogos e livros, com animação extra paga à parte para quem o pretenda). “Temos esta envolvente do próprio parque, mais a biblioteca e a ludoteca, portanto é um local que facilmente convida à animação e ao convívio entre as crianças e os pais e avós”, salienta Cristina Porto. Segundo estipula o contrato assinado com a Câmara, duas manhãs por semana, a Clareira Encantada disponibiliza as suas instalações às escolas da região que pretendam usufruir do espaço. Nessa perspectiva de abertura à comunidade “também já acolhemos exposições e organizámos eventos de solidariedade”, adianta a sua presidente que, a troco de um salário mínimo e de muito prazer pelo que faz, assume ali o papel de mulher dos sete ofícios: “Estou com as crianças, mas também faço limpeza, pinto e recupero coisas que nos dão e que vou pedindo pelo Facebook ou que as pessoas da comunidade nos trazem...”.
Jorge A. Ferreira

CRUZ QUEBRADA Antigo acesso à praia continua a ser perigoso


Festejos em honra do Senhor Jesus dos Navegantes decorrem até domingo

Na sequência de alguns acidentes fatais, mas também devido à crescente afluência à praia da Cruz Quebrada, a REFER procedeu, em meados de Julho, ao encerramento do acesso poente ao areal a partir da linha de caminho-de-ferro. A intenção era boa, mas não parece estar a resultar em pleno. Em poucos minutos presente no local, o JR assistiu a algumas manobras arriscadas por parte de pessoas que preferem contornar o bloqueio criado à anterior passagem do que acederem, em segurança, às passagens inferiores desniveladas existentes a poucos metros de distância, tanto a poente como a nascente. Testemunha privilegiada dos atravessamentos da linha férrea, Fernando Carriço, que gere o Bar da Raia, no interior da estação da Cruz Quebrada, deposita pouca fé na medida tomada pela REFER. “Tinha de ser uma barreira mais alta, uma grade de ferro, por exemplo, que impedisse mesmo qualquer tentativa de passagem, porque há muita gente que, mesmo vendo os avisos, não abdica de ir pelo caminho a que estavam habituados”, disse ao JR, embora admitindo que algumas pessoas possam não ver devidamente os cartazes de alerta, talvez demasiado extensos e, ainda por cima já com grafitos a dificultarem a leitura. “Talvez devessem ter poucas palavras e uma seta enorme, senão as pessoas não percebem ou nem se dão ao trabalho de ler...”. O comerciante dá alguns exemplos do que não deveria estar a acontecer, mas que é uma realidade: “Já vi avós a passarem com os netos pelo muro,que é um palmo de largura, passam os miúdos para baixo e depois descem eles também”. Uma situação que,
garante, se multiplica por muitas vezes ao fim-de-semana. A talho de foice, um cliente do bar lembra outro caso: “No outro dia um homem até ficou amarelo porque quase caía à linha, depois de ser apanhado de surpresa pela passagem de um comboio a alta velocidade – segundo disse, pensava que todos os comboios param na estação, o que não é verdade”. Fernando Carriço recorda, ainda, a última colhida de que tem registo, há cerca de dois meses. “Era um jovem, que ia de capuz e com auscultadores, passou por detrás do comboio de onde acabara de sair e não viu, nem ouviu, o outro que vinha em sentido contrário”. Depois disso, aconteceu outra morte, mas “foi suicídio”... Para a REFER, o objectivo da intervenção foi baixar o risco de acidente, que vinha aumentando com o crescendo de pessoas que atravessavam a linha não como utentes da via férrea, mas como forma de aceder à praia. Para além do barramento do acesso ao areal com pedras e um pequeno muro, a REFER viria a complementar a intervenção concretizando, a 25 de Julho, o processo de automatização do atravessamento de nível naquela estação, numa operação “inserida num conjunto de acções implementadas visando a melhoria das condições de segurança e mitigação do risco dos atravessamentos de nível com vista à redução do número de acidentes”, segundo explicou, então, a empresa. Embora a medida não esteja a resultar em pleno na Cruz Quebrada, pelo menos algumas pessoas acataram as instruções e seguem agora, em segurança, para o túnel de acesso. “Eu passei a vir pelo caminho recomendado, são só uns metros... mas continuo a ver um senhor de idade a descer e a trepar o muro junto à linha para aceder à praia”, disse ao JR Mercedes Coelho, moradora na zona.
Jorge A. Ferreira

"Avante" com a música portuguesa


Austeridade vai estar patente nos discursos, mas não afecta programação da Festa do Avante

A uma semana do início da 36.ª edição da Festa do “Avante”, são muitos os militantes comunistas que resistem ao calor e participam na montagem das estruturas do mais relevante acontecimento cultural e político do ano. Pelas contas da organização, cinco mil militantes dão o seu contributo para a festa que vai decorrer entre 7 e 9 de Setembro. Pelos vários palcos da Quinta da Atalaia, no Seixal, vão passar 150 espectáculos, na sua grande maioria com artistas portugueses. Uma decisão que não estará relacionada com restrições financeiras mas com a “valorização da música que se faz em Portugal”, afirma Ruben de Carvalho, membro do comité central do PCP e da direcção da Festa do “Avante”. Inclusivamente, “desde 1989, todos os técnicos que asseguram os espectáculos são portugueses”. Mas custos são custos e mesmo na sua festa magna os comunistas quiseram “precaver-se”, revela Alexandre Araújo, do secretariado do comité central, porque o país “está a viver um momento de austeridade”. Contudo garante que “não haverá quebra no padrão de qualidade” dos espectáculos. Aliás, a austeridade e as decisões do Governo sobre a condução política de Portugal prometem ser um dos temas fortes numa festa que apesar de abranger todas as expressões culturais, vai colocar em cima da mesa as questões nacionais. “A Festa do ‘Avante’ nunca esteve desligada da situação política que se vive em cada altura que se realiza. E este ano vai lembrar o pacto de agressão em que o país se encontra”, vincou Alexandre Araújo ao Jornal da Região “Assistimos à tentativa de destruição do Serviço Nacional de Saúde, da escola pública, alteração da legislação laboral e ataque ao poder central democrático com a extinção de freguesias”, acrescenta. São temas a focar nos mais de 30 debates previstos durante a festa, e que serão contributos para os documentos a serem apresentados no XIX Congresso do PCP que decorrerá nos dias 30 de Novembro, 1 e 2 de Dezembro no Complexo Municipal dos Desportos – Cidade de Almada. Quanto a destaques da Festa do “Avante” 2012, para além de uma exposição fotográfica em homenagem aos trabalhadores e valorização do seu trabalho na criação de riqueza nacional, vão ser evocados os 70 anos da morte de Bento Gonçalves (secretário-geral do PCP entre 1929 e 1942) no campo de Concentração do Tarrafal, os 75 anos da obra-prima de Picasso, “Guernica” e ainda as lutas de 1962 como um marco contra o fascismo e o nascimento da Rádio Portugal Livre. Vozes cruzadas em palco Quanto aos espectáculos, o palco principal vai abrir com a Orquestra Sinfonietta de Lisboa, num concerto que inclui 16 peças sinfónicas em que todos os solistas são jovens portugueses. O fecho da festa vai ser também emportuguês, com o fado nas vozes de Ana Moura e Hélder Moutinho, em dois espectáculos através dos quais a direcção da festa pretende assinalar a classificação do fado como património imaterial da humanidade. Mais uma vez alguns dos mais conhecidos intérpretes da música portuguesa vão cruzar vozes em parcerias trabalhadas para a Festa do “Avante”, é o caso de Sara Tavares que vai actuar ao lado de Pacman, Rão Kyao e Nancy Vieira e também de Jorge Palma que vai estar em palco com Tim (Xutos & Pontapés), Cristina Branco e Tiago Bettencourt. Também a vocalista dos Deolinda, Ana Bacalhau, vai formar parceria com os Gaiteiros de Lisboa, num concerto que junta ainda Zeca Medeiros e Adiafa. “Os artistas portugueses reconhecem que na Festa do ‘Avante’ têm condições técnicas e de acolhimento que não encontram noutro local em Portugal”, afirma Ruben deCarvalho para explicar o surgimento destas parcerias que apenas se podem ouvir na Quinta da Atalaia. 
 Humberto Lameiras

COSTA DA CAPARICA Movimento de cidadãos defende Transpraia


Desde que o cais de embarque do popular comboio de praia foi afastado do coração da cidade, negócio entrou em quebra

Um grupo de cidadãos da Costa da Caparica levantou-se em defesa do Transpraia e convocou para 15 de Setembro uma manifestação para impedir o fim deste comboio de praia que há 52 anos liga a frente urbana de praias da cidade à Fonte da Telha. A acção está marcada para as 16 horas, na praia da Riviera, junto às oficinas deste comboio tradicional. Neste encontro vai ser lembrado que o fim do Transpraia começou a ser ditado com o início das obras Polis da Costa da Caparica. Um programa que tem vindo a tropeçar de governo em governo e, com o actual, também ainda não viu luz verde para terminar o que ficou a menos de meio. Entretanto, este movimento ganha diariamente maior expressão na rede social Facebook através da página “Vamos impedir que acabem com o Transpraia na Costa”, e está a decorrer também uma petição pública dirigida à ministra da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território, Assunção Cristas, e à presidente da Câmara de Almada, Maria Emília de Sousa. Nestes cinco anos de impasse do Polis o cais de embarque do comboio de praia foi arrastado da frente urbana de praias
para uma zona “escondida” junto ao bairro do Campo da Bola, e o seu proprietário, António Pinto da Silva, afirma ter dito aos responsáveis pelo programa, Câmara de Almada e Estado, que o Transpraia não conseguiria sobreviver. A resposta foi a promessa de que o comboio seria integrado num interface com o Metro Sul do Tejo (MST) e transporte rodoviário. “No primeiro ano ainda houve um autocarro a fazer a ligação entre a zona urbana da Costa da Caparica e o local de partida do Transpraia, mas nada mais”, lembra António Pinto da Silva. Sem MST – quem não se sabe se chegará à Costa – e autocarros e também longe do coração da cidade da Costa da Caparica e dos olhos dos turistas, o Transpraia perdeu os contratos com anunciantes que decoravam as carruagens e perdeu passageiros. No espaço de cinco anos, contas feitas até ao ano passado, “perdemos 75 por cento dos passageiros. Este Verão já perdemos mais 10 por cento”, contabiliza António Pinto da Silva que vaticina que este será o último Verão do comboio de praia. Agora o Transpraia tem como aliado um movimento de cidadãos que defende a “preservação da memória da Costa a Caparica”, afirma Sandra Simões, uma das organizadoras deste movimento. “As pessoas desta terra estão cansadas de ver desaparecer tudo o que faz parte do seu património cultural e arquitectónico, e o comboio de praia faz parte da sua história”, acrescenta. Evitar o fim de um ex-líbris Este movimento “espontâneo”, que “não tem qualquer ideologia política”, apenas “pretende evitar o extermínio de mais um ex-líbris” da Costa da Caparica, “sensibilizar os utentes e, eventualmente, cativar possíveis ‘sponsors’ que façam renascer o comboio”, refere Sandra Simões. “O Transpraia é uma mais-valia para o turismo da Costa da Caparica, mas para isso precisa de voltar a estar posicionado num local visível”. É esta ideia que está expressa na petição a ser enviada ao Ministério e à autarquia. “Com base neste princípio, preocupados com o futuro e desiludidos pelos erros da implementação do Programa Polis, vimos pedir a V. Exas. que no âmbito das suas competências intervenham junto da Sociedade Costa Polis, no sentido da manutenção do ponto de partida do ‘Transpraia’ no seu local original, ou nesta impossibilidade, na sua colocação junto à actual lota/equipamentos de apoio à actividade pesqueira”, assim termina a petição. Por seu lado, António Pinto da Silva, depois dos últimos anos alertar as várias entidades responsáveis pelo Polis de que a actual situação do Transpraia “não é sustentável” mostra-se cauteloso. “Esta iniciativa do movimento de cidadãos dá-me algum ânimo, mas isso só por si não chega”. É que o desgaste de um negócio “não se recupera facilmente. São necessários apoios financeiros para voltar a montar toda uma estrutura que se foi desgastando”. Uma das hipóteses, avança, “é conseguir fundos comunitários direccionados para a revitalização turística da Costa da Caparica e fazer renascer o Transpraia”.
Humberto Lameiras